PHDA no adulto: quando o problema não é só distração
A PHDA no adulto não se resume à distração. Saiba como pode surgir com irritabilidade, ansiedade, labilidade emocional e diagnóstico tardio.

Perguntas frequentes sobre PHDA no adulto
A PHDA no adulto pode parecer ansiedade?
Sim. Muitas pessoas chegam à consulta por preocupação excessiva, tensão interna, sobrecarga, falhas na organização e sensação de viver sempre em atraso constante. Parte desta "ansiedade" pode resultar da própria PHDA não tratada, embora ansiedade e PHDA também possam existir ao mesmo tempo, isto é, em combinação. É precisamente por isso que o diagnóstico diferencial é indispensável., sendo a avaliação em consulta de Psiquiatria por Teleconsulta ou Presencial fundamental.
É possível ter PHDA e só descobrir em adulto?
Sim. Isso acontece com frequência, especialmente em mulheres. Sintomas mais relacionados com a desatenção, tendência a serem atribuídos outros diagnósticos, estratégias compensatórias de camuflagem e maior exigência social na idade adulta ajudam a explicar o motivo pelo qual alguns casos só chegam a avaliação em consulta de Psiquiatria mais tarde.
O diagnóstico faz-se com análises ou exames ao cérebro?
Não. O diagnóstico é clínico. Questionários e escalas podem ajudar, mas não substituem a entrevista clínica, a história ao longo da vida, a avaliação funcional, informação de outras pesosas como familiares e exclusão de outros quadros que possam imitar a PHDA. Não existem análises laboratoriais que diagnostiquem PHDA no adulto. Em muitos casos, o médico Psiquaitra na consulta de Psiquiatria pode solicitar uma avaliação Neuropsicológica.
O tratamento da PHDA no adulto é só medicação?
Não. A medicação pode ser muito útil e, muitas vezes, é uma peça central do tratamento, mas os melhores resultados surgem frequentemente quando se junta à medicação a intervenção psicológica, estratégias práticas de organização e tratamento das outras doenças ou problemas que possam vir associados.

PHDA no adulto: quando o problema não é só distração, mas também desregulação emocional
Durante anos, a PHDA no adulto foi resumida a 3 ideias: desatenção, hiperatividade e impulsividade. Esta formulação continua útil, no entanto é redutora demais para a realidade das pessoas que têm PHDA. Em adultos, a PHDA pode traduzir-se em dificuldade em iniciar tarefas, desorganização persistente, falhas de definir o que é prioritário, esquecimentos frequentes, vida pessoal e social caótica, impaciência e baixa tolerância à frustração.
Estima-se que afete cerca de 4% a 5% dos adultos, com impacto no dia a dia, no trabalho, nas relações e na vida diária.
O problema é que muitos adultos não se reconhecem nesta imagem "clássica". Não se queixam de "hiperatividade" no sentido infantil do termo. Queixam-se antes de sentir a cabeça sempre cheia, de saltar entre tarefas, de adiar o que exige esforço mental, de se perderem em detalhes irrelevantes e de explodirem com pequenas frustrações.
Muitos adultos, em vez de parecerem "hiperativos", parecem apenas exaustos, desorganizados ou emocionalmente sobrecarregados.

É aqui que entra uma dimensão muitas vezes esquecida:
a desregulação emocional.
No adulto com PHDA, as seguintes áreas podem pesar bastante no dia a dia:
- irritabilidade
- mudanças abruptas de humor
- reatividade emocional intensa
- dificuldade em modular a resposta emocional
O próprio Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais - 5ª Edição (DSM5-TR) não coloca as áreas acima referidas como critério diagnóstico nuclear, todavia reconhece como características associadas à PHDA:
- baixa tolerância à frustração
- irritabilidade
- labilidade do humor
Estes fenómenos são frequentes e relevantes na vida das pessoas com PHDA, podendo agravar o prejuízo funcional, a instabilidade relacional e o risco de más interpretações diagnósticas.
Isto ajuda a explicar o motivo pelo qual tantos adultos chegam à consulta de Psiquiatria Online ou presencial a pensar que têm "só ansiedade", "só depressão" ou até uma "personalidade difícil".
A PHDA do adulto cruza-se muitas vezes com quadros de humor, perturbações da ansiedade, consumo de substâncias e perturbações da personalidade. O diagnóstico diferencial tem de ser feito com cuidado.
Na ansiedade, predominam medo persistente, preocupação excessiva e sintomas somáticos.
Na depressão, exige-se um episódio com humor deprimido e ou perda de interesse, com alterações de energia, sono, apetite e cognição.
Na perturbação da personalidade borderline, podem existir impulsividade, instabilidade afetiva e explosões de raiva, contudo surgem também medo intenso de abandono, perturbação da identidade, autoagressão e relações muito conflituosas, o que não define a PHDA.
Nem toda a irritabilidade é PHDA, mas reduzir a PHDA a uma mera perturbação da atenção é um erro igualmente grosseiro. Em muitos casos, o que parece "ansiedade" é afinal a sensação crónica de falhar prazos, esquecer coisas importantes e viver sempre a correr atrás do prejuízo. O que parece "depressão" pode incluir desmoralização acumulada por anos de sub-rendimento, conflito e culpa. E o que parece "falta de maturidade" pode ser, afinal, uma perturbação do neurodesenvolvimento não reconhecida a tempo.
A PHDA está a ser diagnosticada cada vez mais, pela primeira vez, na idade adulta

Esta questão é particularmente importante nas mulheres. A literatura recente sublinha que a PHDA está a ser diagnosticada cada vez mais, pela primeira vez, na idade adulta, especialmente entre mulheres. Há várias razões para isso. Muitas apresentam sobretudo sintomas de desatenção e sintomas internalizantes, menos "barulhentos" do que a hiperatividade disruptiva típica de alguns rapazes. Além disso, as expectativas sociais e escolares tendem a punir mais cedo certos comportamentos impulsivos nas raparigas, tornando a apresentação menos óbvia e favorecendo diagnósticos tardios ou errados.
Nas mulheres adultas com PHDA, é importante destacar as seguintes áreas:
- maior predominância de sintomas desatentos
- mais sintomas internalizados
- autoestima mais frágil
- maior peso da desregulação emocional
Em termos práticos, isto pode significar anos de vida vividos com a sensação de ser "desorganizada", "demasiado sensível", "inconstante", "dramática" ou "preguiçosa", quando o quadro de base nunca foi corretamente identificado e explicado. Também as dificuldades nas relações, a maternidade, a gestão da casa, a carga mental e até alguns comportamentos sexuais de risco podem ficar amplificados quando a PHDA não é identificada e diagnosticada a tempo.
Uma avaliação séria de PHDA no adulto não se faz em piloto automático.
Exige entrevista clínica cuidadosa, análise do funcionamento atual em mais do que um contexto, reconstrução da história desde a infância e esforço ativo para despistar outras perturbações que podem imitar a PHDA ou, até, existir em conjunto com ela.
Exige também humildade metodológica, já que a memória retrospectiva do adulto sobre a infância é frequentemente pouco fiável. A recordação retrospectiva isolada pode identificar corretamente apenas uma minoria dos casos, estimada em cerca de 27%. Por isso, quando possível, é fundamental integrar informação colateral, comentários de professores, boletins das escola, relatórios antigos e observações de familiares ou parceiros de referência. Questionários como o ASRS, a DIVA 5.0 ou instrumentos focados em função executiva e controlo emocional podem ser úteis, porém não substituem raciocínio clínico.
Do ponto de vista terapêutico, há boas notícias.
A PHDA no adulto tem tratamento e existe evidência robusta para intervenção farmacológica, psicoterapêutica e combinada. Os estimulantes continuam a ser, em regra, a abordagem farmacológica mais estudada e mais utilizada. Existem também opções não estimulantes. Mas reduzir o tratamento a "dar medicação para a atenção" é pobre e, por vezes, ineficaz na prática. Muitos adultos precisam também de intervenção sobre a organização, a gestão do tempo, o planeamento, os hábitos de sono, a própria autoestima, os padrões de evitamento e problemas psicológicos ou médicos associados.

A terapia cognitivo-comportamental tem um lugar importante.
A literatura mostra benefício da terapia cognitivo-comportamental (TCC) no adulto com PHDA, sobretudo quando combinada com medicação, com impacto não apenas nos sintomas nucleares, mas também em ansiedade, depressão, organização e funcionamento global.
As intervenções com melhores resultados costumam incluir:
- psicoeducação
- estratégias de planeamento
- divisão de tarefas
- combate à procrastinação
- gestão da distração
- reestruturação de pensamentos automáticos derrotistas.
Para algumas pessoas com PHDA, abordagens com componentes de mindfulness ou de regulação emocional também podem ser úteis como adjuvantes, sobretudo quando a labilidade emocional é clinicamente relevante.
Há ainda uma forma particularmente interessante de compreender a PHDA do adulto que pode ajudar a quem tem a doença a dar um sentido da própria experiência:
a ideia de que, em muitos casos, existe uma:
perturbação da regulação do estado de ativação
Em vez de pensar apenas em "falta de atenção", podemos pensar num sistema que regula mal o nível de alerta, esforço e resposta ao estímulo.
Em tarefas monótonas pode surgir subativação, aborrecimento intolerável e procura de estímulo.
Em contextos de pressão, novidade ou sobrecarga pode surgir hiperreatividade, distração fácil e pior controlo do comportamento.
A literatura científica sobre o Sistema Nervoso autónomo, locus coeruleus e arousal vai nessa direção e ajuda a explicar porque o desempenho do adulto com PHDA é muitas vezes tão irregular.
Importa, contudo, não transformar esta hipótese num biomarcador mágico. Trata-se de um modelo neurofuncional promissor e intelectualmente útil, não de um teste de rotina que "confirme" o diagnóstico em consulta.
Em suma, a PHDA no adulto não é apenas uma perturbação da distração. É, em muitos casos, uma perturbação da regulação da atenção, do impulso, da organização e da emoção.
Quando passa anos sem reconhecimento e tratamento certo, pode parecer ansiedade, depressão, preguiça, desorganização crónica ou fragilidade de personalidade. Quando é bem avaliada, o quadro muda de forma. O doente deixa de se ver como moralmente defeituoso e passa a compreender um padrão clínico tratável. E isso, em psiquiatria por teleconsulta ou presencial, não é pouca coisa.
